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Família e negócios, dá para misturar?

 

05/08/2015

 

Escrito por Igor Piquet, especialista em empreendedorismo

 

A empresa familiar é - e sempre foi - muito presente na realidade brasileira. Cerca de 90% dos negócios no Brasil têm esse perfil, segundo dados do Sebrae e do IBGE. O mesmo estudo, porém, afirma que apenas 30% das empresas familiares sobrevivem após a primeira transição entre gerações, e esse número cai para 5% quando há passagem para uma terceira geração.

 

Pensando nisso, vamos reunir algumas dicas, simples e valiosas, para conseguir misturar negócios e família, sem ressaca nos anos seguintes e com maiores chances de sucesso. Vai que dá!

 

1 - Separe os bens da família dos ativos da empresa

 

Por que não usar aquele desconto para pessoa jurídica pra comprar o carro novo da sua filha? Esse é um dilema comum dos empreendedores, mas que deve ser muito bem refletido! Ativos que não estão ligados à operação do negócio irão afetar consideravelmente suas demonstrações financeiras e contábeis, podendo causar problemas, por exemplo, na hora de procurar investidores ou captar recursos com instituições financeiras. Mesmo que pareçam custos pequenos, cuidar dessa conduta faz a diferença pra evitar as “bolas de neve” nos gastos e, principalmente, garantir transparência aos stakeholders.

 

2 - Associe-se pelas habilidades complementares, não apenas por laços familiares

 

Confiança é, sem dúvidas, um fator essencial em uma sociedade. Mas, na busca por um sócio, é importante procurar alguém com perfil e habilidades complementares às suas, seja um profundo conhecimento de mercado ou habilidades comerciais e técnicas que se destacam quando comparadas às suas características. Se essa pessoa é o seu irmão/primo/tio... ótimo! Mas não se comprometa a iniciar um novo negócio com ele só porque vocês eram bons amigos na infância ou porque um dia ele te carregou no colo. Já vimos sociedades mal feitas destruírem centenas de negócios extremamente promissores.

 

3 - Contrate e promova seu time com base nos resultados, não por vínculos afetivos

 

Ter gente boa e preparada no seu time é a maior característica de um empreendedor de sucesso. Por isso, a sucessão da alta gestão e as novas contratações dos membros da família também precisam passar pela avaliação de currículo e habilidades necessárias para aquela função. Isso ajuda a não comprometer a criação de um verdadeiro time de alto impacto.

 

Isso também vale para empreendedores com perfil paternalista que gostam de manter e promover funcionários só pelo tempo de casa ou por relações de apadrinhamento. Essa prática inibe qualquer possibilidade de encontrar jovens talentos dispostos a se dedicar de forma extraordinária. Criar um ambiente meritocrático, que promova o reconhecimento, evita que as pessoas fiquem na sua empresa por comodismo entregando um percentual mínimo do seu potencial real. Afinal, “por que suar tanto a camisa se só é promovido quem tem um certo período de casa, ou só vira diretor quem tem o sobrenome da família?”

 

4 - Regularize tudo em contratos sociais e registros formais

 

Uma grande ilusão dos sócios de empresas familiares é acreditar que não precisam formalizar contratos como acordos de acionistas, por exemplo, acreditando desgastar a relação com seu parente com uma conversa tão desconfortável. Acontece que, quando as coisas vão bem, dificilmente vai haver discordâncias - quando os lucros são altos, a repartição justa baseada na conversa é sempre cumprida. Porém, quando a coisa fica preta, as regras começam a ficar confusas e os mal-entendidos podem aparecer. Por isso, o jogo fica mais limpo e mais fácil de jogar quando as regras estão claras desde o começo. Além de evitar dor de cabeça no futuro, os registros formais são um grande indicador de profissionalismo e visão para investidores, instituições financeiras e para o próprio time.

 

5 - Lugar de trabalho é no escritório, questões familiares em casa

 

Por fim, um clássico dos negócios familiares: os sócios têm uma dificuldade enorme em separar os assuntos de família e da empresa. Esse é um tema subestimado, mas trata-se de uma prática extremamente nociva, tanto para o ambiente de trabalho, quanto para o convívio familiar. Uma dica é criar, o quanto antes, pequenas regras internas entre os familiares envolvidos no negócio, a fim de colocar cada tipo de discussão no seu devido momento e local. Afinal, fazer vista grossa e permitir uma conversinha “aqui e outra ali” para resolver um problema, vai contribuir para que, daqui a pouco, você esteja discutindo os problemas com a sogra na sala de reuniões, e conversando sobre balanços financeiros no aniversário de 5 anos da sua sobrinha.

 

Igor Piquet é coordenador da Endeavor no Nordeste



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